Posts de Junho, 2008

“A MAIORIA DOS CIDADÃOS NÃO SABE COMO FUNCIONA O TRABALHO DOS VEREADORES E DO PREFEITO”

Junho 19, 2008

Mais uma vez os cidadãos cariocas vão às urnas para eleger os candidatos que irão representá-los pelos próximos quatro anos. No pleito deste ano serão escolhidos os vereadores e o prefeito. Mas será que o eleitor sabe o que os ocupantes desses cargos fazem? Nessa entrevista o professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, Vladimyr Lombardo Jorge, explica como funciona a estrutura de um governo municipal, bem como quais são as reais atribuições dos vereadores e do prefeito. Para ele, o eleitor que conhecer a organização político-administrativa da cidade terá mais critério para decidir em quem votar no dia 3 de outubro, primeiro turno das eleições municipais. “Quando o eleitor se conscientizar da importância do voto, a vida política da cidade, e também do país, melhorará”, disse o professor.

Carlyle Junior – Quais são as reais atribuições do ocupante do cargo de prefeito?

Vladimyr L. Jorge - O prefeito tem suas funções definidas pela Constituição federal e pela Lei Orgânica das cidades. Pode-se dizer que a Lei Orgânica é uma espécie de constituição dos municípios. Nela, estão estabelecidas as atividades que devem ser exercidas pelo prefeito e também pelos vereadores. Vale ressaltar que as leis orgânicas variam de cidade para cidade. No caso do Rio de Janeiro, o documento (http://www2.rio.rj.gov.br/pgm/leiorganica/leiorganica.html) determina 26 tipos de competências que são exclusivas do cargo de prefeito como nomear e exonerar secretários municipais, vetar projetos de lei total ou parcialmente, fixar tarifas de serviços públicos e decretar calamidade pública. Enfim, essas e outras funções são de responsabilidade do prefeito, uma vez que cabe a ele cuidar das atividades político-administrativas do município. Com relação à escolha dos seus secretários, por exemplo, ele possui plena autonomia para isso. Mas é claro que essa autonomia sofre a influência do jogo político. O prefeito distribui cargos públicos e secretarias aos partidos que o apóiam na câmara municipal. Ele precisa contar com uma base aliada no Legislativo para que as medidas de seu interesse sejam aprovadas pelos vereadores.

Carlyle Junior – Qual a origem da verba que mantém as prefeituras?

Vladimir L. Jorge - Existem verbas que são provenientes da transferência dos governos federal e estadual. Os municípios também possuem tributos e taxações próprios, que constituem as principais fontes de arrecadação das prefeituras. Os recursos que mantém os municípios são definidos na Lei Orgânica. Ou seja, ela regulamenta quais são os impostos que devem ser cobrados no âmbito municipal. Mas os repasses de dinheiro dos governos federal e estadual ajudam a engordar os cofres das prefeituras. Há cidades no Brasil que se sustentam quase que exclusivamente do dinheiro repassado pela União. Claro, que não é o caso do Rio de Janeiro que possui uma certa independência financeira

Carlyle Junior – Para que servem as câmaras municipais?

Vladimyr L. Jorge – A maioria dos brasileiros não conhece o funcionamento das câmaras de vereadores. Na verdade, o eleitor brasileiro não sabe como funciona o trabalho dos vereadores e também do prefeito. A câmara municipal, ou melhor, o poder Legislativo tem duas funções clássicas. A primeira é criar leis. Na lei orgânica do município do Rio de Janeiro (http://www2.rio.rj.gov.br/pgm/leiorganica/leiorganica.html) estão discriminadas as leis que podem ser criadas pela câmara. O artigo 44 define que cabe ao vereador legislar sobre o sistema tributário, serviços públicos, isenções e anistias fiscais, por exemplo. O artigo 67 também indica outras atribuições do vereador, como criar emendas à Lei Orgânica. A segunda função da câmara municipal é fiscalizar a atuação do prefeito e os gastos da prefeitura. Os vereadores devem zelar pelo bom desempenho do poder Executivo e exigir prestação de contas dos gastos públicos. Mas a atuação dos vereadores não se limita somente à criação de leis e fiscalização do poder Executivo. Mas existem outras funções que também são da alçada do poder Legislativo. Os vereadores devem intermediar o contato da população com a prefeitura. Um recurso chamado indicação, que consiste num documento que o vereador envia a prefeitura ou outro órgão municipal solicitando um pedido apresentado por um eleitor, é meio importante que possibilita esse canal entre governo municipal e população. Os pedidos podem variar desde a poda de uma árvore até a reforma de uma escola. As indicações não têm o peso burocrático de uma lei. O vereador não precisa fazer nenhuma consulta em plenário para apresentar a indicação ao prefeito. Por isso, as indicações produzem efeito mais imediato. Muitos cidadãos não sabem da existência desse recurso e, talvez, muitos vereadores também. O Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio está realizando uma pesquisa sobre o uso das indicações pelos vereadores do Rio. Eu e o professor Paulo Dávila, que coordena a pesquisa, descobrimos que na legislatura anterior, de 2001 a 2004, alguns vereadores usaram o recurso com muita freqüência e outros nunca usaram.

Carlyle Junior – O senhor concorda com algumas análises que defendem a extinção das câmaras de vereadores?

Vladimyr L. Jorge – Eu acho que as funções que já citei até aqui dão conta da importância das câmaras de vereadores. Mas eu também me pergunto se realmente há necessidade da existência desse tipo de estrutura em municípios pequenos. Para acabar com a câmara de vereadores em alguns lugares, teria que alterar a Constituição brasileira. Ela exige que todo município do país disponha desse aparato na esfera municipal -câmara de vereadores e prefeitura-, independente da extensão territorial e do número da população. Eu acho que poderia ter na Constituição uma norma estabelecendo que os municípios que têm um número de habitantes abaixo de “X” tivessem uma estrutura de governo mais simples e menos onerosa. Mas teríamos que discutir que outro órgão ou instituição seria responsável pela criação das leis e fiscalização do poder executivo.


Carlyle Junior – Como o senhor disse, uma das funções da câmara dos vereadores é fiscalizar a atuação do prefeito. Em algum momento, o poder executivo pode interferir no trabalho dos vereadores?

Vladimyr L. Jorge – A relação entre poder Legislativo e Executivo no âmbito municipal funciona da mesma maneira que no Congresso Federal e nas Assembléias Legislativas dos estados. Um projeto de lei, aprovado pelos vereadores, só se torna lei depois que for sancionado pelo prefeito. Ele tem o poder veto assegurado pela Constituição. No entanto os vereadores também podem derrubar o veto do prefeito. Em última instância é o Legislativo que decide se uma lei é criada ou não. No caso do governo federal ainda existe a poder judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF), que pode considerar uma lei inconstitucional e fazer com que ela deixe de existir. O prefeito pode apresentar projetos de leis aos vereadores , o que, talvez, possa ser considerado uma interferência do poder Executivo no Legislativo

Carlyle Junior – Existe algum tipo de mecanismo, assegurado por lei ou não, que permita ao cidadão o acompanhamento das atividades do prefeito e dos vereadores?

Vladimyr L. Jorge – O eleitor pode acompanhar o trabalho dos vereadores e do prefeito de inúmeras. Ele pode consultar o Diário Oficial dos municípios. Lá constam todas as medidas lançadas em plenário e sancionadas pelo prefeito. Ou até mesmo decisões mais corriqueiras como a contratação e exoneração de funcionários públicos. No município do Rio de Janeiro ainda é possível que o eleitor acompanhe a atuação do prefeito e dos vereadores pela internet (http://riotransparente.rio.rj.gov.br/). Muitos municípios no Brasil já disponibilizam esse tipo de recurso. Algumas câmaras municipais e prefeituras publicam jornaizinhos com as informações e os assuntos que estão na pauta dos municípios. Além disso, os cidadãos têm entrada livre na câmara de vereadores para assistir as sessões da casa.

Carlyle Junior – O senhor acredita que se o eleitor conhecesse melhor as reais atribuições dos prefeitos e vereadores, ele escolheria os candidatos com mais cuidado antes de decidir em quem votar?

Vladimyr L. Jorge – Claro que se o eleitor sabe como funciona a vida política da cidade, certamente, ele terá mais critério na escolha dos seus candidatos. O cidadão tem que se engajar mais nas questões políticas. Só assim ele conhecerá a estrutura dos governos. É bem verdade que vivemos numa sociedade que não estimula uma participação mais ativa do cidadão na política. Nós também nos conformamos em permitir que outros indivíduos tomem decisões em nosso nome. Por isso, cidadãos devem buscar mais informações sobre os políticos que eles elegeram. Temos que acompanhar de perto a atuação daqueles que foram eleitos para representar o interesse público. Devemos conferir se a verba do município está sendo aplicada devidamente. Enfim cabe a nó também fiscalizar o trabalho dos legisladores e dos chefes do Executivo. Quando o eleitor se conscientizar da importância do voto, a vida política da cidade, e também do país, melhorará.

Carlyle Junior

Entre o céu e o inferno

Junho 5, 2008

De acordo com pesquisa de intenção de voto divulgada na última quarta-feira, 4, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) mantém a liderança na luta pela prefeitura do Rio de Janeiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), Crivella possui 27,6% dos votos. A propaganda eleitoral só é permitida pelo TRE a partir de agosto. Mas, o bispo possui impressionante força de penetração nas camadas populares através da Igreja Universal do Reino de Deus, o que contribui para seu sucesso nas pesquisas. Confira o levantamento do IBPS na íntegra no link http://oglobo.globo.com/pais/eleicoes2008/mat/2008/06/04/ibps_crivella_mantem_lideranca_na_disputa_pela_prefeitura_do_rio-546647160.asp

Outros números divulgados pelo IBPS relacionados ao pré-candidato Marcelo Crivella chamam atenção. Apesar de liderar as intenções de voto, o senador continua sendo o mais rejeitado de todos que lutam pelo cargo de prefeito do Rio: 19,2% dos eleitores consultados não votariam em hipótese alguma em Crivella. Na internet, existem vários blogs contrários ao senador. No “Crivella Não (Ninguém merece o bispo)” várias notas retiradas de jornal e relacionadas ao senador são postadas. http://crivellanao.blogspot.com/

Amado ou odiado, a verdade é que Marcelo Crivella possui chances de se tornar prefeito da cidade do Rio em outubro. Além da simpatia dos fiéis da Igreja Universal, o senador também é bem visto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jornalista Jorge Serrão é editor-chefe do blog “Alerta total”, no qual faz um panorama sobre política. http://alertatotal.blogspot.com/2008/03/cidade-maravilhosa-do-reino-de-deus.html Para ele, ainda existem outros fatores que levam o candidato do PRB a ser o favorito na corrida eleitoral. Segundo Serrão, o fato de ser sobrinho do bispo Edir Macedo, que é dono da Rede Record de Televisão, traz muitos benefícios ao senador:

“Logicamente, a Record não fará campanha para Crivella. Até porque a lei não permite. E o bom senso menos ainda. Mas uma emissora bem estruturada, e com índices de audiência crescentes, dará sustentação ao eventual governo Crivella, que deve sofrer dura oposição da Rede Globo e da Igreja Católica. Se bobear, até o Papa Bento 16 vai interferir no processo eleitoral que buscará votos de fiéis no Morro do Alemão e adjacências. Crivella é forte nas favelas, onde conquistou a grande parte dos seus 3,5 milhões de votos para o Senado, em 2002. Nada custa lembrar: ele derrotou o “mito” Brizola…”, explica o jornalista.

Na opinião dele, os grandes investimentos da Rede Record no Rio de Janeiro também podem influenciar positivamente na imagem de Marcelo Crivella. O jornalista acredita que, em breve, o bispo chegará ao Palácio do Planalto:

“A eleição municipal de 2008 no Rio de Janeiro tem importância capital para uma estratégia de poder futura – já bem desenhada politicamente pela cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus. Caso consiga eleger Crivella – como o atual cenário indica -, o projeto seguinte é a conquista do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em 2010. Sendo governador – e com a ajuda da máquina televisiva da Record e a capilaridade da Igreja Universal por todo o Brasil -, fica mais fácil o tão sonhado caminho para o Palácio do Planalto em 2014. O Bispo Macedo já avisou que não será candidato. Prefere apoiar seu sobrinho Marcelo”, conclui.

Marcelo Brüzzi

AS REGRAS DO JOGO: JUÍZES ELEITORAIS SE REÚNEM PARA DISCUTIR ELEIÇÕES 2008 NO RIO

Junho 5, 2008

Juízes eleitorais de todo o estado se reuniram na última segunda-feira, 2, para discutir as eleições municipais deste ano. No encontro, realizado no auditório do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), eles trataram de temas como propaganda irregular, campanha na internet e calendário eleitoral. O presidente do TRE-RJ, o desembargador Roberto Wider, ressaltou que os magistrados devem garantir que os partidos políticos, bem como os candidatos, respeitem as determinações da Justiça Eleitoral. Segundo ele, o controle das propagandas assegura o princípio da igualdade entre os pretendentes aos cargos eletivos do pleito de 5 de outubro. Wider ainda acrescentou que “o objetivo não é perseguir ninguém, mas sim aplicar a lei”. (http://www.tre-rj.gov.br/noticias/2008/junho/intra.pdf)

A portaria 02/08, que disciplina a propaganda na web e em outros meios eletrônicos de comunicação, foi apresentada na reunião. Aprovado pelos partidos políticos e pela Corte do TRE-RJ, o documento permite a divulgação de campanha eleitoral em blogs e sites de relacionamentos, como o Orkut. A partir de seis de julho, os candidatos não mais ficarão restritos às suas páginas oficiais para se manifestarem publicamente na grande rede. No entanto, o envio de mensagens não solicitadas por meio de torpedos, spams, telemarketing e correio de voz continua proibido, em atendimento à Resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). (http://www.tse.gov.br/downloads/eleicoes2008/r22718.pdf)

O funcionamento de centros sociais mantidos por candidatos também foi debatido no encontro. Segundo o coordenador estadual de fiscalização de propaganda do TRE-RJ, juiz Luiz Marcio Pereira, os postos comunitários abertos neste ano terão que interromper as suas atividades, já o mais antigos podem continuar funcionando desde que não haja nenhum vínculo político.

De acordo com o calendário eleitoral 2008 (http://www.tre-rj.gov.br/eleicoes/2008/calendario/restse22579-07.pdf), no dia 10 de junho começam as convenções partidárias para a escolha definitiva dos candidatos que disputarão as eleições municipais – prefeitos, vice-prefeitos e vereadores. Os partidos têm até o dia 30 de junho para realizá-las. Pereira disse que a legislação libera, durante o período das convenções, a propaganda nas proximidades do local onde elas acontecerão. Mas ele alertou que as legendas não poderão utilizar outdoor, programas em rádio e televisão para promover e divulgar as candidaturas.

No fim da reunião, o vice-presidente do TRE-RJ, desembargador Alberto Motta Moraes, pediu aos juízes eleitorais que preparem um relatório de todas as atividades desenvolvidas até a realização do pleito. Com isso, ele acredita que será possível criar uma memória das eleições e evitar que alguns problemas se repitam em 2010.

Carlyle Junior

Meros desconhecidos

Junho 3, 2008

Nas eleições municipais de outubro, cerca de 11 milhões de fluminenses irão às urnas escolher seus representantes pelos próximos quatro anos. Estima-se que 15 mil pessoas lutarão por cargos de vereador nas 92 câmaras municipais espalhadas pelo Estado do Rio de Janeiro. Nada mais democrático do que o direito ao voto, independentemente de sexo, raça e condição financeira – marcas das eleições do passado.

Mas, de acordo com o jornalista e professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Chico Otávio, as eleições proporcionais não são levadas a sério pela sociedade.(http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1381&sid=13) O fato é que a maioria das pessoas não lembra em quem votou para vereador ou deputado nas últimas eleições. O que se comprova pelo quase insignificante número de acessos às informações dos parlamentares do Rio no site www.transparenciabrasil.org.br. Desde que o portal foi criado, em 2000, os políticos cariocas que exercem cargos eletivos tiveram apenas 504.521 visitas. O que representa aproximadamente 5% dos eleitores do estado.

No site, as pessoas podem consultar a assiduidade em plenário e os bens declarados à Justiça Federal, entre outros dados relevantes relacionados à vida política dos senadores, deputados e vereadores. Um ranking com os políticos mais procurados também pode ser encontrado. E os números relacionados aos candidatos à prefeitura do Rio chamam atenção.

Quem encabeça a lista com 80 mil acessos é o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), seguido do também deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que possui 47 mil visitas. O vereador Paulo Ramos (PDT-RJ) passa quase despercebido pelos eleitores. Suas informações foram procuradas apenas 60 vezes. Confira a lista completa no link http://www.excelencias.org.br/@casa.php?cs=19.

A pouco mais de quatro meses para a “festa da democracia” as estatísticas mostram que a maioria dos eleitores não está bem preparada para escolher os novos representantes.

Marcelo Brüzzi